A escolha de Sofia

Gostaria de escrever sobre outro tema, mas o COVID-19 tomou conta da nossa agenda, e não dá para falar de outra coisa. Estamos hoje na mesma situação filosófica do filme “A escolha de Sofia”, inicialmente um livro escrito por Willian Styron, conta a história de uma mãe polonesa, durante a Segunda Guerra mundial, onde no trem para embarcar para o campo de concentração, com o vagão cheio, o soldado alemã oferece a opção de deixar um dos filhos para trás. Na decisão lógica ela escolhe deixar o filho, pois esse, na sua visão, era mais forte e poderia sobreviver. No campo de concentração a filha morre e ela vive com a culpa para o resto da vida, sem saber se realmente o filho tinha sobrevivido. Na discussão com a minha esposa ela optaria por levar todos, e se tivessem que morrer, seria o destino. “A escolha de Sofia” é um dilema moral. Quando fui estudar nos EUA, para custear meus estudos, fazia trabalhos de revisão estatística para projetos da universidade. Um dos projetos que participei avaliava o dilema do trem descontrolado. O dilema é muito simples, um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desatentas sobre a linha, elas não deveriam estar ali, e se o operador do trem puxar uma alavanca, atingirá uma única pessoa que está fazendo o seu trabalho no local certo. A dúvida moral é matar 5 pessoas que estavam no lugar errado, ou matar uma única pessoa que estava no lugar certo, mas por sua decisão, ela morreu. Os resultados foram muito interessantes, pois diferentemente do que se esperava, mais de 50% decidiu que o operador não deveria puxar a alavanca. O mesmo teste com uma simulação virtual em computador, onde pessoas com o mesmo perfil são testadas, mais de 97% puxam a alavanca. Ou seja, quando é hipotético, eu consigo pensar racionalmente, mas quando é “real”, eu não tenho a mesma reação. O professor fez novamente a pesquisa com a possibilidade de “não decidir”. Nessa pesquisa mais de 80% preferiu não decidir. Quando estamos frente a um dilema, onde as duas opções são ruins, o melhor é não decidir e deixar que o tempo decida por nós. Mais ou menos como a decisão de ir para o campo de concentração com os dois filhos, e deixar que a natureza decida se eles vão resistir ou não. Estamos frente a um dilema, como a escolha de Sofia, onde as duas opções existentes são ruins. Se as pessoas continuarem confinadas, a curva de contaminação diminui, o que faz com que os atendimentos nas UTIs possam ser realizados, pois como eu disse no meu último post, o vírus é loteria. Uma parcela pequena da população vai ser internada e vai necessitar de ventiladores para continuar respirando. Mas se continuarmos confinados, as pequenas e médias empresas Brasileiras vão quebrar, pois não possuem reservas financeiras para pagar salários sem receitas. Pensem nos 600 mil UBER, que precisam dos 22 milhões de usuários circulando. Todas essas pessoas estão sem renda hoje. O que é pior, ter um grupo maior de pessoas infectadas, ou ter as famílias brasileiras sem capacidade de pagar suas contas? O filosofo inglês John Stuart Mill, no século 19, definiu o que seria a teoria do “utilitarismo”, onde a ética é escolher o mal menor, ou seja, matar um para salvar 5. Será que pensamos da mesma forma se falarmos de salvar 100 milhões perdendo 1,5 milhões de vidas? E se entre essas mortes estão membros da sua família? O tema não é simples, mas também não podemos esperar que tudo volte ao normal sem ação. Acredito que a melhor opção para o Brasil seja voltar seletivamente. Primeiro as indústrias, depois as empresas de serviços e por último o comércio. No dia 26/03 completamos um mês que o vírus se instalou no Brasil, como o ciclo é de 15 dias, se aguardarmos até 26/04, teremos 4 ciclos completos, o mesmo que fez a China. A grande maioria que pegou o vírus de forma “desatenta”, já apresentou os sintomas. O grande risco ainda continua nos assintomáticos, mas esse risco não tem como mitigar. A indústria poderia voltar a partir de 27/04/2020, a área de serviços a partir de 04/05 e por fim o comércio a partir 11/05. Definindo as datas, terminamos com o sentimento de incerteza, e já colocamos o país de novo nos trilhos. O governo tem que continuar com campanhas de atenção a assepsia das mãos e o distanciamento social, mas temos que estar preparados para os mais de 40.000 casos que teremos até o COVID-19 seja estabilizado. Com esse número de casos teremos aproximadamente 2.000 mortes. Esses números são projeções, que podem ser maiores ou menores. Mas a única certeza, é que 2020 será um ano difícil.